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Enguias europeias finalmente seguidas até ao Mar dos Sargaços

Enguias europeias finalmente seguidas até ao Mar dos Sargaços Enguias europeias dotadas de marcação por satélite foram seguidas até ao Mar dos Sargaços, contribuindo para resolver o mistério da sua migração

Wright, R.M., Piper, A.T., Aarestrup, K. et al. First direct evidence of adult European eels migrating to their breeding place in the Sargasso Sea. Sci Rep 12, 15362 (2022). https://www.nature.com/articles/s41598-022-19248-8

 

Esta descoberta demonstra o importante papel dos Açores no ciclo de vida da enguia europeia, uma espécie criticamente ameaçada de extinção. Neste sentido, incentivará cientistas e governantes a implementar medidas de conservação e restauro dos habitats desta espécie no arquipélago. José Manuel N. Azevedo (co-autor)

 

A migração reprodutora da enguia europeia (Anguilla anguilla) até ao Mar dos Sargaços é um dos grandes mistérios naturais por resolver. Uma equipa de investigadores do Reino Unido, Açores, Dinamarca e Suécia, coordenada pela Environment Agency, UK, deu agora um grande passo na resolução desse mistério, providenciando a primeira evidência direta de enguias europeias navegando até ao seu presumível lugar de reprodução no Mar dos Sargaços.

O ciclo de vida da enguia europeia causa a perplexidade dos investigadores desde o século IV AC. De Aristóteles a Sigmund Freud, pensadores e cientistas intrigaram-se sobre o mecanismo de reprodução e o local de desova desta espécie. Foi já no início do séc. XX (1923) que o oceanógrafo Johannes Schmidt, apoiado pela Carlsberg Foundation, sugeriu as Bermudas como o local de desova de todas as enguias do continente europeu. Esta hipótese resultou do trabalho minucioso de Schmidt, mapeando a distribuição das pequenas larvas de enguia em todo o Oceano Atlântico. Apesar dos seus esforços, e do de muitos outros oceanógrafos depois dele, as evidências da reprodução das enguias no Mar dos Sargaços são apenas as larvas: nunca foram encontrados nem ovos nem adultos desta espécie.

A enguia europeia foi uma espécie muito comum nos cursos de água e nas lagoas costeiras e estuários em toda a Europa e Norte de África, mas a sua abundância decresceu drasticamente nas últimas décadas, estando classificada como “Criticamente Ameaçada de Extinção” pela Lista Vermelha da IUCN. A viagem reprodutiva das enguias europeias até ao Mar dos Sargaços é considerada uma das mais impressionantes manifestações de migração animal: uma migração épica de 6.000 a 10.000 km, que demora anos e é feita sem alimentação. O conhecimento dos mecanismos de navegação, das vias percorridas e dos locais precisos de reprodução, é crítico para compreender a razão do seu declínio e para a conservação desta espécie tão importante a nível global.

Uma equipa de investigadores liderada pela Environment Agency, UK em colaboração com a Zoological Society of London, CEFAS, DTU-Aqua e a Universidade dos Açores, deu agora um grande passo na resolução deste mistério quando marcaram enguias nos Açores e as seguiram nos 2.500 km da última etapa da sua longa viagem. Os Açores estão próximo dos pontos mais longínquos até onde a migração das enguias tinha sido seguida por projetos anteriores, executados a partir da Europa continental.

Em dezembro de 2018 e de 2019, marcas de satélite foram colocadas em 26 grandes enguias fêmea, as quais foram libertadas em praias para começar a sua migração. As marcas foram programadas para se libertarem após 6-12 meses. A maioria das marcas permaneceram nos animais durante todo o tempo programado, tendo informação sido recebida de 23 das 26 marcas.

Os resultados mostram que as enguias migraram com uma orientação constante em direção à área de reprodução, tendo 5 delas atingido o Mar dos Sargaços. Surpreendentemente, os resultados mostram que as enguias demoram mais de um ano a atingir a área de desova a partir dos Açores. Não é neste momento possível saber se elas se atrasam para sincronizar a sua chegada com a de animais vindos da Europa, ou se estes necessitam de ainda mais tempo para completar a sua migração.

A equipa está já a preparar uma análise mais aprofundada dos dados recolhidos de modo a, num futuro próximo, fornecer mais informação sobre esta espécie fascinante.